Fake news: você já leu muitas e nem sabia disso!

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Fake news: assim caminha a humanidade?

As fake news estão no centro do debate. Essas notícias falsas, disseminadas na rede, estão influenciando eleições, manchando reputações e reforçando comportamentos. Sua força advém da própria natureza humana de acreditar no que lhe é caro. Como se preparar para este cenário de agonia para a verdade e os fatos?

Você provavelmente já leu várias fake news. E sinto dizer, você vai ler muito mais neste ano de eleições no Brasil. Um dado: na última eleição americana, 27% das pessoas leram ao menos uma notícia falsa na semana pré-votação. Agora essa nau da desinformação está prestes a desembarcar por aqui, ávida por eleitores, como mostra essa reportagem recente do Fantástico.

As fake news são a unidade elementar do atual contexto da pós-verdade. Nele, as pessoas tendem a aceitar as informações mais alinhadas às suas crenças e visão de mundo e a rejeitar as que são contrárias. A verdade e o fato são detalhes.

Por que somos assim? A resposta é: sempre fomos assim. Não é novidade para os estudiosos que o poder da crença supera o argumento ou fato. Faz parte da natureza humana. É o que os psicólogos chamam de “viés de confirmação” – a tendência de acreditarmos no que nos convém e ignorarmos o que nos contraria.

Mas o que mudou então?

Esta reportagem da Época traz uma análise interessante sobre isso, ou seja, o que o diferencia o atual fenômeno das fake news do nosso já constatado hábito de crermos no que queremos. Alta polarização política, descentralização da informação e ceticismo em relação às instituições são ingredientes que fermentam a confeitaria das fake news.

Faz sentido. Sociedades polarizadas estão mais distantes do debate racional. A multiplicidade dos canais de informação, por sua vez, possibilitou, por um lado, a ampliação das nossas fontes de consulta e de formação da opinião, mas, por outro, abriu brechas para o uso antiético da “informação” – sites de notícias com viés ideológico, portais falsos, posts enganosos etc. Tudo isso turbinado pelo alto poder de propagação das mídias sociais e das ferramentas de compartilhamento, e ancorado em uma sociedade que não acredita mais nas suas estruturas de poder – ou seja, pronta para acolher fake news que reverberem esse estado de espírito.

Um exemplo interessante é o da exposição de arte QueerMuseum, lançada em Porto Alegre no ano passado. Ela foi acusada de estímulo à zoofilia e pedofilia por grupos conservadores de cunho religioso. Do outro lado, defensores da liberdade artística e de expressão se puseram a favor da mostra e contra a tentativa de “censura”. A discussão logo descambou para a política – esquerda X direita. E a arena pública se transformou em um celeiro de fake news. No período de embate entre esses dois grupos antagônicos, 13% dos posts contra a exposição e 7% dos posts a favor foram produzidos por robôs. No fim das contas, a exposição foi cancelada e o Santander, à frente do espaço cultural, teve de vir a público dar explicações sobre o conteúdo da mostra e, depois, sobre o seu cancelamento.

O caso QueerMuseum traz ainda uma reflexão importante para as empresas. Se antes as grandes organizações se viam de certa forma “protegidas” com o controle da informação exercido pelos meios de comunicação tradicionais, hoje tudo isso foi pelos ares. A mesma indústria de fake news (o lado B, como dizem) que destrói a reputação de um candidato à presidência pode voltar suas baterias contra empresas e negócios. O Santander, no episódio, acabou envolvido e “achatado” pelo furor implacável dos dois grupos de protesto, alimentados por notícias falsas geradas por robôs e o culto messiânico em suas crenças particulares.

Por isso, os gestores das organizações precisam estar atentos a este cenário da pós-verdade e das fake news, entender suas especificidades e se preparar para ele, como propõe este workshop desenvolvido pela S1.

Hoje, os gigantes da tecnologia, como Google e Facebook, estão buscando formas de alertar, classificar ou mesmo coibir notícias falsas na rede, ainda sem sucesso. Mas o problema é de fundo: como algoritmos poderão checar a “verdade” de uma informação?

Há muito trabalho pela frente.